quarta-feira, 12 de março de 2014

Recife 477 anos


No Recife chove a esperança de que a última gota lave o cheiro de mangue
No Recife chove a esperança que tudo por fim tenha perfume de mangue
No Recife chove em cima e embaixo das sete pontes
No Recife chove no mar e para o mar de lá chovem os rios
No Recife chove nos homens nos caranguejos nas igrejas e nos fortes
Estrangeiro andante errante vacilante
Findou que o Recife choveu em mim



O amor acaba (Paulo Mendes Campos)

O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova Iorque; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.


Coragem

Ser feliz e ter coragem estão do mesmo lado da barragem. Quando quebra o concreto é um aguaceiro só. Mas tem que dar martelada forte, pois coragem é coisa rara no mercado. Não venha no varejo. Felicidade e coragem só existem no atacado.

quinta-feira, 6 de março de 2014

A noite de 21 anos

Sugestão de leitura no mês do cinquentenário do Golpe Civil-Militar e da longa e sanguinária ditadura que se seguiu. Imagino difícil para qualquer historiador (ou leitor...) separar a própria memória, a história e as preferências políticas, mas acredito que Marcos Napolitano conseguiu um bom equilíbrio. Que esses tempos sombrios, com os quais ainda temos uma dívida grande, nunca mais nos visitem.


sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Sem Mais


Seja Nômade
Ambulante
Delirante
Se afaste das margens 
Não há porto seguro
O melhor é navegar
Namore o abismo
Pois mesmo no fundo
O buraco é mais embaixo
E, sobretudo,
Fique certo de uma coisa: 
Não há certeza 
De absolutamente nada

Foto: José Padilla.net 

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Bolsa Família

Veja que interessante: 

No Brasil, apenas ano passado, foram sonegados (muito especialmente pelos mais ricos e milionários) cerca de 400 bilhões de reais (4 vezes todo o orçamento da Saúde no mesmo ano!!!). Quantos posts dos "indignados de Face" vemos sobre isso? Mas o grande problema, para os desinformados e egoístas, é essa família no interior na Paraíba (na qual todos trabalham - saiba você que 75% dos que têm BF trabalham - e pagam mais imposto que eu ou você que me lê, pois são tributados no consumo) receberem um auxílio (como ocorre em todo país civilizado do mundo e foi imitado até pela Suiça) que se converte em mais reais girando na economia (bom para todo mundo!) e que permite que seus filhos (por uma imposição do BF) permaneçam na escola. Chamam-lhe de "Bolsa Esmola", esses egoístas sempre de plantão contra os mais pobres e calados quanto aos grandes sonegadores. Depois não sabem porque perderão mais uma vez uma eleição, não porque Dilma ou PT são perfeitos (estão longe disso), mas porque perderam o trem da história e não têm propostas além dos berros antipetistas, que desejam o pior para o país apenas para alimentar um ódio infantil e desinformado.



domingo, 26 de janeiro de 2014

Marca Passo

Foto: Marco Zero, Recife, nesta manhã de domingo.


Essa gente pernambucana desde cedo aprende a amar essa dança
Eu, Paraíba nato, coitado, não me afoito nem ao primeiro passo
Mas é bonito de ver a leveza do corpo...
Voa como se uma mola mágica impulsionasse o salto
Uma belezura que dá gosto
Em Recife é assim: depois do Natal é tudo Carnaval


Vai ter Copa e Eleição

Vai ter Copa. Vejo um protesto com menos de 1000 pessoas na Paulista (metade ali só pra quebrar lata de lixo e pontos de ônibus, além de tacar fogo em fusquinha), enquanto, na mesma cidade, 30 mil em um estádio para assistir a uma final de Copinha São Paulo (Imagina na Copa!!). Não acho que vamos fazer a "Copa das Copas", como a Presidenta assevera. Nem precisamos. A não ser que ela fale sobre alegria, pois assim somos o ano todo. Não somos a Alemanha. Nem nossos governantes nem nós somos europeus. Vamos fazer uma Copa que teve atraso nas obras, que teve superfaturamento nos estádios (e que obra desde Cabral não teve?), que teve discussão sobre de onde vem o dinheiro (ninguém consulta os dados mesmo...), que tem outras mil coisas a resolver além de uma partida de futebol e que tem até uma Cláudia Leite no Palco!!?? (Isso dava um protesto honesto). Nós somos o Brasil, as nossas feridas sangram há 500 anos, não apenas em 2014. Falta muito para melhorar como queremos. Ah, mas como tanta coisa melhorou só a minoria (felizmente) há de negar... Vai ficar sem entender que arrisca não ter é segundo turno, pois vão insistir que gente como eu, e esse povo todo, é penas "burro" (bom mesmo é democracia sem povo, como querem alguns, ou ganhar no tapetão, como desejam tantos). Democracia dói, se sabe, mas há de se aguentar a vontade popular. Vox Populi Vox Dei. Nós reclamamos dos políticos, mas tantos de nós somos desonestos e damos sempre "um jeitinho", molhamos a mão do guarda ou do funcionário público, estacionamos na vaga de deficiente ou idoso "só por um minutinho", cruzamos o sinal vermelho e andamos na contramão (às vezes, até da História...). Não, estádio e futebol também não são minha maior paixão e a Copa é só mais uma festa dessas que fazemos tanto, do nosso jeito brasileiro. "Nova Iorque é bom, mas é uma merda; O Brasil é uma merda, mas é bom" (discutiam Vinicius e Tom). Desrespeito com a população, indígenas desabrigados, mais dinheiro (ainda) para a Educação, mais médico de plantão... Essa é a causa boa, mas muitos querem apenas desestabilizar para sonhar com a eleição do tapetão. Sempre tem tanta coisa errada, em cada ponte construída, em cada estrada esburacada. Protestar sempre para indicar o caminho por onde podemos melhorar, mas discurso fascista, black block sem noção, pedindo que militares saiam do quartel e gente que nem procura saber onde está a razão, também não. "Enquanto você grita Gol alguém rouba a nação"? E se não gritar gol melhora? Parece aquele que não dá esmola a pobre porque "ele vai é beber cana", mas adora uma cerveja gelada para refrescar a cabeça cansada... Puta merda, com uma vida na desgraça nem um gole de cachaça? Nem vou a estádio. Mas, sim, vai ter copa e eleição. E o povo livre e soberano, esse sim (quer gostemos ou não) é que vai decidir o seu destino mais uma vez.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Coração Selvagem

Que um dia ele volte, talvez em uma estrela colorida, brilhante, e traga a necessária e bela tristeza para nossa esperança esfarrapada. Saudades de você, grande mago Belchior.

"Meu bem, guarde uma frase pra mim dentro da sua canção
Esconda um beijo pra mim sob as dobras do blusão
Eu quero um gole de cerveja no seu copo no seu colo e nesse bar
Meu bem, o meu lugar é onde você quer que ele seja
Não quero o que a cabeça pensa eu quero o que a alma deseja"

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Saudade

A música no rádio e a novela não sabem nada da tua ausência 
Sinto muito por elas e por todos os carros na rua 
Não sentem a alegria de lembrar os abraços e o cheiro dos cabelos
Essa ausência (que não é falta) é um espaço vazio cheio de coisas tuas