terça-feira, 3 de julho de 2012

Clarice e o Solo (II)

"Eu não quero ser eu somente, por ter um eu próprio, quero é a ligação extrema entre mim e a terra friável e perfumada” 

O livro dos Prazeres, Clarice Lispector.

Foto: Joel Sartore, National Geographic

Clarice e o Solo (I)

" ...a terra embaixo dos pés era tão profunda e tão secreta que não havia a temer a invasão do entendimento dissolvendo seu mistério" (Clarice Lispector, Perto do Coração Selvagem).

JIM RICHARDSON/National Geographic (Camadas de solo reveladas em um corte de estrada em Washington).

Sem Dor

Comprimido,
Comprimudo.
A dor calada. 


segunda-feira, 18 de junho de 2012

Sônia Gabriela

A Gabriela da minha memória. A cabocla paranaense-carioca que é por demais a Bahia, tal como Jorge Amado a sonhou, é tão bonita quanto a canção de Tom. Sônia Braga, sempre Gabriela!

Tema de Amor de Gabriela (Tom Jobim)

"Chega mais perto moço bonito
Chega mais perto meu raio de sol
A minha casa é um escuro deserto
Mas com você ela é cheia de sol
Molha tua boca na minha boca
A tua boca é meu doce, é meu sal
Mas quem sou eu nessa vida tão louca
Mais um palhaço no teu carnaval
Casa de sombra, vida de monge
Quanta cachaça na minha dor
Volta pra casa, fica comigo
Vem que eu te espero tremendo de amor"


São João


Na minha infância, o São João (esse Santo sempre determinou o conjunto junino que seria também de Antônio e Pedro) estava dentro de mim. Volto com minhas memórias meninas a minha cidade natal: o cheiro das comidas de milho, as fogueiras e o forró pé de serra, que me acaricia o coração com seus versos simples de uma belezura profunda, são muito em mim. Nem mesmo a artificialidade e industrialização de um Parque que, afinal, é do Povo, com alguns sons inoportunos que em nada, de riqueza melódica ou lírica, enfeitam meus ouvidos e olhos com uma cultura que seja minha, que seja eu, consegue apagar a força do São João que vive dentro das minhas lembranças. Salvam-me Antônio Barros e Cecéu, Marinês, Biliu de Campina a pandeirar como Jackson, Os Três do Nordeste, Amazan, Flávio José, que criam e reproduzem as canções dos mestres de nossa cultura. Esses ecos me benfazejam o que sempre se destinou em mim. O corpo desenha com a memória os passos das quadrilhas de menino na cidade que em muito ainda é minha. O São João ainda está dentro de mim.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Kim Phuc


Hoje é o aniversário de 40 anos de um dos mais fortes registros da chamada "Guerra do Vietnam"... A menina de 9 anos, Kim Phuc, corre em desespero após ter sido atingida pelo bombardeio de Napalm, enquanto é indiferentemente observada por soldados norteamericanos. A imagen captada por Nick Ut em 08 de junho de 1972 correu o mundo como uma denúncia da insensatez daquela guerra. Recebeu o prêmio Pulitzer de fotografia. Lembrar para não esquecer. Histórica!

domingo, 3 de junho de 2012

O Anjo de Chuva


 Sou aos pedaços, inacabado. Às vezes me movo como caranguejo no mangue ou como leão na savana. Deveria ter enlouquecido aos 17, quando tudo era (mais) permitido. Mas acaricio a maturidade com olhos por vezes descuidados e muito atenciosos. Olhares que devoram ruas, praças, corpos e cidades com as mesmas articulações dos dedos que esmagaram o silêncio da boca. Junto significados e experiências na fenomenologia antes impossível. Acender a luz e apagar o quarto. Maravilhar-se sempre. Mesmo com a chuva, a dor e a alegria que molham a janela de um sábado sem sol.


Imagem de autor desconhecido, mas que guarda total semelhança com o anjo que ontem pousou na minha janela...

terça-feira, 29 de maio de 2012

O Chapeleiro Maluco e a Contaminação por Mercúrio

Johnny Depp, na versão de Alice de Tim Burton

O Chapeleiro maluco sempre será associado ao personagem de Lewis Carrol em Alice no País dos Maravilhas.  Poucos sabem (meus alunos de pós-graduação em Solos e Qualidade Ambiental, por exemplo, ficam sempre surpresos quando lhes conto o fato para animar nossas aulas...), no entanto, que a origem do personagem vem da expressão inglesa “mad as a hatter” (em brasileiro: louco como um chapeleiro). Esta origem se relaciona a uma doença comum naqueles que trabalhavam na manufatura de chapéus no século XVII.  Uma solução de mercúrio (Hg), um metal extremamente tóxico, era usado no processo de feltração dos chapéus. Os chapeleiros inalavam os fumos de mercúrio (o que era facilitado pelos ambientes com pouca ventilação em que trabalhavam) e desenvolviam sintomas neurotoxicológicos como tremores, perda de coordenação, depressão, irritabilidade e ansiedade. Resumindo, “A Síndrome do Chapeleiro Maluco”. Mas Lewis Carrol, bom que se diga, não inventou o ditado; ele apenas refletiu em sua bela estória uma situação bastante comum na época da primeira publicação de Alice (1865). 

domingo, 20 de maio de 2012

A cidade que dorme


A primeira vez que visitei Havana, em 2001, a cidade em abandono foi o que mais me impressionou. Muitos pontos da cidade foram restaurados, trazidos à luz em cores novas e vibrantes. No entanto, o que há de distante nos prédios antigos, com suas paredes enegrecidas e portões enferrujados, que presenteia os olhos com essa beleza fortuita corroída pelo tempo, parece-me a essência da cidade.  Havana me pareceu uma Madri em ruínas, onde a perspectiva dos olhares estrangeiros e das miradas dos cubanos se encontram nas labirínticas possibilidades de se sentir a cidade por diferentes perspectivas. Walter Benjamin disse que as pessoas que não moram na cidade são as que mais se interessam por suas características mais exóticas. O que há de pitoresco nos prédios antigos da capital de Cuba, uma incerta melancolia que se vê nas ruas de seus barrios antiguos, toca-me mais que a majestosa arquitetura de seu Capitólio. Havana tem uma beleza acidental e uma força que se ergue das ruínas e que, por fim, sintetiza certa estética da decadência que tanto me agrada quando a visito.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

À Flor do Preconceito


Essa sorridente garota, com todos os seus direitos da juventude e da liberdade da inconsequência (e, quem sabe, do "bom berço"), tem sido enxovalhada nas redes sociais. À parte do mau gosto desses posts, e de muitos desses tipos que se vê por aqui, com ataques diretos a pessoas que não se enquadram no senso imposto de estética, nível social, cultural ou o que quer que seja usado para nos deixar parecendo especiais diante desses outros "seres inferiores", o ódio vomitado pela moça jovem e bonita ainda nos surpreende a muitos. Sou nascido na Paraíba e não consigo entender porque o meu lugar de nascimento me faria inferior (ou superior) a quem nasceu em Erexim, Shangai, Santana de Ipanema, Barcelona ou Piracicaba. O curioso é vermos a pobreza (imaginária ou real) dentro da pobreza e do preconceito. O São Paulo e o país onde a moça nasceu podem ser tratados por nova iorquinos ou madrilenos com o mesmo desdenho que ela ofereceu aos “nordestinos que não são gente”. Será que ela se apercebe disso? Que londrinos poderiam achar que “ela não é gente” por causa de seu lugar de nascimento? Seria ignorância dela e deles se assim o fizessem ou se disso não se apercebessem... Que bobagem achar que os poemas de Manuel Bandeira, as peças de Ariano Suassuna ou as canções de Caetano e Gil seriam melhores (ou piores) se eles tivessem nascido em algum rincão do Centro Oeste, Sul ou Sudeste do Brasil. Momento de ódio e desapontamento, talvez, porque seu candidato havia perdido as eleições para Presidente. Queria “culpados” e achou que “matar um nordestino” seria um bom começo... Não a tenho ódio ou desejo de vingança como muitos na rede demonstram (talvez muitos deles com seus próprios preconceitos guardados a sete chaves, sejam nordestinos, sulistas ou sudestinos – curioso que essa palavra nunca é usada. A ouso, de maneira conciliatória, aqui). Em verdade, sinto-me tocado e dou-lhe (ainda que não me peça ou dela não precise) a indulgência por sua inocência, ignorância e preconceito adquirido no seio de uma Sociedade que assim a desenhou ou por ela se ter permitido ou se conduzido a isso. Quantos por aí não sentem o mesmo, mas não se descuidam publicamente como a moça fez? Cometeu um erro e foi condenada. Esperemos que aprenda e cresça em sua humanidade, ao mesmo tempo em que dizemos, em alto e bom tom, que isso não é aceitável. Digo sempre que pessoas legais e estúpidas se encontram em todos os lugares, de Recife a Nova Deli, de Porto Alegre a Hong Kong. A moça não divide a opinião com a maioria dos seus conterrâneos, tenho certeza. Eu não fiquei alegre vendo as duas torres caindo, como vi alguns, pois sei que aquele país onde vivi durante um ano não foge a essa regra universal de bondade e maldade, de discernimento e preconceito. Não se deve pregar a vingança ou o ódio, mas o entendimento e a sensação de solidariedade com todos (e a Lei onde ela, bem aplicada e dosada, se fizer necessária). Não me sinto, como nordestino, aviltado pelas palavras da moça. Já viajei o suficiente pelo mundo para não me render a esses estereótipos que fazem do meu país, da geografia do meu nascimento, e, nesse caso da moça, da região Nordeste, o que chamarei aqui de “um fatalismo geográfico”. De outro lado, não me parece bem aqueles que se investem do preconceito alheio e passam a defender as belezas de “sua terra” como superiores; soa-me um sentimento de colonizado mal resolvido, que sempre acha que está sendo “discriminado” por algum motivo. Hoje tomei meu café da manhã na padaria. A moça me serviu o sanduíche e trocamos risadas agradáveis sobre piadas bobas. Isso já me aconteceu da mesma forma em São Paulo, Beijing, Paris, João Pessoa e Durban. O mesmo sorriso, a mesma compreensão de compartilharmos a mesma humanidade. Espero, de verdade, que as moças e moços partilhem dessa ideia e desse sorriso.