
Essa sorridente garota, com todos os seus direitos da juventude e da liberdade da inconsequência (e, quem sabe, do "bom berço"), tem sido enxovalhada nas redes sociais. À parte do mau gosto desses posts, e de muitos desses tipos que se vê por aqui, com ataques diretos a pessoas que não se enquadram no senso imposto de estética, nível social, cultural ou o que quer que seja usado para nos deixar parecendo especiais diante desses outros "seres inferiores", o ódio vomitado pela moça jovem e bonita ainda nos surpreende a muitos. Sou nascido na Paraíba e não consigo entender porque o meu lugar de nascimento me faria inferior (ou superior) a quem nasceu em Erexim, Shangai, Santana de Ipanema, Barcelona ou Piracicaba. O curioso é vermos a pobreza (imaginária ou real) dentro da pobreza e do preconceito. O São Paulo e o país onde a moça nasceu podem ser tratados por nova iorquinos ou madrilenos com o mesmo desdenho que ela ofereceu aos “nordestinos que não são gente”. Será que ela se apercebe disso? Que londrinos poderiam achar que “ela não é gente” por causa de seu lugar de nascimento? Seria ignorância dela e deles se assim o fizessem ou se disso não se apercebessem... Que bobagem achar que os poemas de Manuel Bandeira, as peças de Ariano Suassuna ou as canções de Caetano e Gil seriam melhores (ou piores) se eles tivessem nascido em algum rincão do Centro Oeste, Sul ou Sudeste do Brasil. Momento de ódio e desapontamento, talvez, porque seu candidato havia perdido as eleições para Presidente. Queria “culpados” e achou que “matar um nordestino” seria um bom começo... Não a tenho ódio ou desejo de vingança como muitos na rede demonstram (talvez muitos deles com seus próprios preconceitos guardados a sete chaves, sejam nordestinos, sulistas ou sudestinos – curioso que essa palavra nunca é usada. A ouso, de maneira conciliatória, aqui). Em verdade, sinto-me tocado e dou-lhe (ainda que não me peça ou dela não precise) a indulgência por sua inocência, ignorância e preconceito adquirido no seio de uma Sociedade que assim a desenhou ou por ela se ter permitido ou se conduzido a isso. Quantos por aí não sentem o mesmo, mas não se descuidam publicamente como a moça fez? Cometeu um erro e foi condenada. Esperemos que aprenda e cresça em sua humanidade, ao mesmo tempo em que dizemos, em alto e bom tom, que isso não é aceitável. Digo sempre que pessoas legais e estúpidas se encontram em todos os lugares, de Recife a Nova Deli, de Porto Alegre a Hong Kong. A moça não divide a opinião com a maioria dos seus conterrâneos, tenho certeza. Eu não fiquei alegre vendo as duas torres caindo, como vi alguns, pois sei que aquele país onde vivi durante um ano não foge a essa regra universal de bondade e maldade, de discernimento e preconceito. Não se deve pregar a vingança ou o ódio, mas o entendimento e a sensação de solidariedade com todos (e a Lei onde ela, bem aplicada e dosada, se fizer necessária). Não me sinto, como nordestino, aviltado pelas palavras da moça. Já viajei o suficiente pelo mundo para não me render a esses estereótipos que fazem do meu país, da geografia do meu nascimento, e, nesse caso da moça, da região Nordeste, o que chamarei aqui de “um fatalismo geográfico”. De outro lado, não me parece bem aqueles que se investem do preconceito alheio e passam a defender as belezas de “sua terra” como superiores; soa-me um sentimento de colonizado mal resolvido, que sempre acha que está sendo “discriminado” por algum motivo. Hoje tomei meu café da manhã na padaria. A moça me serviu o sanduíche e trocamos risadas agradáveis sobre piadas bobas. Isso já me aconteceu da mesma forma em São Paulo, Beijing, Paris, João Pessoa e Durban. O mesmo sorriso, a mesma compreensão de compartilharmos a mesma humanidade. Espero, de verdade, que as moças e moços partilhem dessa ideia e desse sorriso.